{"id":1,"date":"2026-08-25T21:27:22","date_gmt":"2026-08-25T21:27:22","guid":{"rendered":"https:\/\/oinsurgente.pt\/?p=1"},"modified":"2026-09-01T18:36:11","modified_gmt":"2026-09-01T18:36:11","slug":"hello-world","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oinsurgente.pt\/?p=1","title":{"rendered":"Depois dos 40 bili\u00f5es, vem a\u00ed a pr\u00f3xima grande crise?"},"content":{"rendered":"<p>A d\u00edvida dos Estados Unidos ultrapassou uma fronteira hist\u00f3rica. O problema n\u00e3o s\u00e3o apenas os 40 bili\u00f5es de d\u00f3lares. \u00c9 perceber quem continuar\u00e1 a financiar esta d\u00edvida, a que pre\u00e7o e o que poder\u00e1 acontecer \u00e0 Europa e a Portugal se a confian\u00e7a dos mercados come\u00e7ar a diminuir.<\/p>\n<p>H\u00e1 n\u00fameros que s\u00e3o apenas n\u00fameros e h\u00e1 outros que funcionam como sinais de alarme.<\/p>\n<p>A d\u00edvida p\u00fablica bruta dos Estados Unidos ultrapassou os 40 bili\u00f5es de d\u00f3lares. \u00c9 um valor dif\u00edcil de imaginar e ainda mais dif\u00edcil de colocar em perspetiva. A maior economia do mundo acumulou um passivo que quadruplicou em menos de duas d\u00e9cadas e continua a acrescentar centenas de milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares todos os anos.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o significa que os Estados Unidos estejam \u00e0 beira da fal\u00eancia. Longe disso. O d\u00f3lar continua a ser a principal moeda de reserva internacional, o mercado de d\u00edvida norte-americano permanece no centro do sistema financeiro mundial e a economia americana conserva uma capacidade extraordin\u00e1ria para criar empresas, atrair investimento, inovar e aumentar a produtividade.<\/p>\n<p>O problema come\u00e7a quando olhamos para o pre\u00e7o que os investidores est\u00e3o a exigir para continuar a financiar Washington.<\/p>\n<p>As obriga\u00e7\u00f5es norte-americanas a 30 anos ultrapassaram recentemente os 5%, chegando a valores que n\u00e3o eram observados desde o per\u00edodo que antecedeu a grande crise financeira. N\u00e3o quer isto dizer que estejamos perante uma repeti\u00e7\u00e3o de 2008. As circunst\u00e2ncias s\u00e3o diferentes. Mas h\u00e1 raz\u00f5es suficientes para prestar aten\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 a acontecer.<\/p>\n<p>Em 2008, o problema estava essencialmente concentrado no sistema financeiro, no mercado imobili\u00e1rio e numa gigantesca montanha de produtos financeiros associados ao cr\u00e9dito hipotec\u00e1rio. Hoje, a preocupa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a deslocar-se para outro territ\u00f3rio, provavelmente ainda mais sens\u00edvel: a d\u00edvida dos pr\u00f3prios Estados.<\/p>\n<p>E isso muda substancialmente o problema.<\/p>\n<p>O mercado est\u00e1 a avisar<\/p>\n<p>O Tesouro norte-americano decidiu aumentar as opera\u00e7\u00f5es de recompra de d\u00edvida de longo prazo para melhorar a liquidez do mercado. Isoladamente, esta decis\u00e3o pode ser encarada como uma opera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica normal de gest\u00e3o da d\u00edvida. Inserida no atual contexto, merece outra aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Washington precisa de encontrar compradores para volumes gigantescos de t\u00edtulos p\u00fablicos precisamente quando existe cada vez mais concorr\u00eancia pelo dinheiro dispon\u00edvel nos mercados.<\/p>\n<p>E essa concorr\u00eancia n\u00e3o vem apenas de outros Estados.<\/p>\n<p>A corrida \u00e0 Intelig\u00eancia Artificial est\u00e1 a provocar uma necessidade colossal de capital. Data centers, redes el\u00e9tricas, chips, sistemas de refrigera\u00e7\u00e3o e novas infraestruturas energ\u00e9ticas exigem investimentos de centenas de milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>As grandes tecnol\u00f3gicas est\u00e3o por isso a recorrer em for\u00e7a ao mercado obrigacionista. Empresas extremamente s\u00f3lidas, algumas com balan\u00e7os compar\u00e1veis aos de pequenos Estados, oferecem aos investidores rentabilidades interessantes e risco relativamente reduzido.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 simples. O investidor que anteriormente comprava d\u00edvida p\u00fablica americana passa a ter mais alternativas. Para continuar a atra\u00ed-lo, o Tesouro poder\u00e1 ter de pagar mais.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que os 40 bili\u00f5es come\u00e7am realmente a tornar-se preocupantes.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 a d\u00edvida. \u00c9 o d\u00e9fice permanente<\/p>\n<p>Segundo as proje\u00e7\u00f5es do Congressional Budget Office, o d\u00e9fice federal norte-americano dever\u00e1 rondar 1,9 bili\u00f5es de d\u00f3lares em 2026, aproximadamente 5,8% do PIB.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos a falar de um d\u00e9fice provocado por uma recess\u00e3o hist\u00f3rica ou por uma emerg\u00eancia semelhante \u00e0 pandemia. Estamos perante uma economia em crescimento que, mesmo assim, apresenta necessidades gigantescas de financiamento.<\/p>\n<p>O CBO estima que a d\u00edvida federal detida pelo p\u00fablico passe de aproximadamente 101% do PIB em 2026 para 120% em 2036. Num horizonte mais longo, poder\u00e1 aproximar-se de 175% do PIB.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 provavelmente a quest\u00e3o mais s\u00e9ria de todas.<\/p>\n<p>Durante muitos anos, acumular d\u00edvida foi relativamente f\u00e1cil porque o dinheiro era barato. Quando os juros se aproximam de zero, um Estado consegue refinanciar enormes volumes de d\u00edvida sem provocar uma explos\u00e3o imediata da despesa.<\/p>\n<p>Mas quando essa mesma d\u00edvida come\u00e7a a ser refinanciada a 4%, 5% ou mais, a matem\u00e1tica muda.<\/p>\n<p>O Estado paga mais juros, o d\u00e9fice aumenta, torna-se necess\u00e1rio emitir mais d\u00edvida e essa emiss\u00e3o adicional pode obrigar a oferecer taxas ainda superiores para atrair compradores.<\/p>\n<p>\u00c9 este c\u00edrculo que deve preocupar os mercados.<\/p>\n<p>Quando Washington paga mais, a Europa tamb\u00e9m sente<\/p>\n<p>Seria um erro olhar para isto como um problema exclusivamente americano.<\/p>\n<p>As taxas de juro da d\u00edvida dos Estados Unidos constituem uma das principais refer\u00eancias para o pre\u00e7o do dinheiro no mundo. Quando sobem de forma persistente, a press\u00e3o acaba por chegar a outros mercados.<\/p>\n<p>Na Alemanha, as obriga\u00e7\u00f5es a 10 anos atingiram recentemente valores pr\u00f3ximos de 3,26%, n\u00edveis que n\u00e3o eram observados h\u00e1 cerca de 15 anos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aqui existe uma mudan\u00e7a importante. A Alemanha prepara um forte aumento da emiss\u00e3o de d\u00edvida para financiar defesa e infraestruturas, enquanto os restantes Estados europeus t\u00eam igualmente enormes necessidades de financiamento.<\/p>\n<p>A Europa quer aumentar a despesa militar, renovar infraestruturas, financiar a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, responder ao envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o e, simultaneamente, competir com os Estados Unidos e a China na economia digital e na Intelig\u00eancia Artificial.<\/p>\n<p>Tudo isto exige dinheiro.<\/p>\n<p>Durante demasiado tempo habitu\u00e1mo-nos \u00e0 ideia de que esse dinheiro seria praticamente gratuito. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Podemos estar perante uma crise pior do que a de 2008?<\/p>\n<p>Podemos, embora provavelmente n\u00e3o aconte\u00e7a da mesma forma.<\/p>\n<p>N\u00e3o considero que o cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel seja uma repeti\u00e7\u00e3o do colapso do Lehman Brothers, com bancos a cair sucessivamente e mercados financeiros paralisados de um dia para o outro.<\/p>\n<p>O risco atual poder\u00e1 ser mais lento e, por isso mesmo, mais dif\u00edcil de resolver.<\/p>\n<p>Uma combina\u00e7\u00e3o prolongada de d\u00edvida p\u00fablica elevada, petr\u00f3leo caro, infla\u00e7\u00e3o resistente, juros de longo prazo altos e crescimento econ\u00f3mico reduzido seria extremamente dif\u00edcil de gerir.<\/p>\n<p>Os Estados teriam de refinanciar d\u00edvida emitida quando os juros estavam pr\u00f3ximos de zero atrav\u00e9s de novas obriga\u00e7\u00f5es significativamente mais caras. As empresas enfrentariam custos de financiamento superiores. As fam\u00edlias pagariam mais pelo cr\u00e9dito. O investimento diminuiria e as economias cresceriam menos.<\/p>\n<p>O problema poderia alimentar-se a si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Quanto maior a despesa com juros, maior a dificuldade em equilibrar os or\u00e7amentos. Quanto maiores os d\u00e9fices, maior a necessidade de emitir d\u00edvida. E quanto maior a quantidade de d\u00edvida colocada no mercado, maior poder\u00e1 ser a remunera\u00e7\u00e3o exigida pelos investidores.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria necessariamente uma crise banc\u00e1ria semelhante \u00e0 de 2008. Poderia transformar-se numa crise internacional do pre\u00e7o do dinheiro e da confian\u00e7a na capacidade dos Estados para manterem as suas contas sob controlo.<\/p>\n<p>Desta vez os bancos centrais t\u00eam menos liberdade<\/p>\n<p>Existe ainda uma diferen\u00e7a fundamental relativamente a 2008.<\/p>\n<p>Quando o sistema financeiro entrou em colapso, os bancos centrais reduziram violentamente as taxas de juro e avan\u00e7aram posteriormente para enormes programas de compra de ativos.<\/p>\n<p>Hoje existe um obst\u00e1culo adicional: a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se a Reserva Federal ou o Banco Central Europeu responderem a uma nova crise atrav\u00e9s de uma pol\u00edtica monet\u00e1ria demasiado expansionista, poder\u00e3o voltar a alimentar a infla\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o intervirem suficientemente, correm o risco de deixar os juros elevados estrangular empresas, fam\u00edlias e Estados.<\/p>\n<p>\u00c9 uma escolha muito mais complicada do que aquela que enfrentaram h\u00e1 18 anos.<\/p>\n<p>Portugal est\u00e1 melhor, mas n\u00e3o est\u00e1 imune<\/p>\n<p>Portugal chega a este per\u00edodo numa situa\u00e7\u00e3o incomparavelmente melhor do que aquela em que se encontrava antes da crise da d\u00edvida soberana.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o do peso da d\u00edvida, o equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas, uma estrutura de maturidades relativamente favor\u00e1vel e a melhoria da perce\u00e7\u00e3o externa do pa\u00eds permitiram reduzir fortemente o pr\u00e9mio de risco portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 importante e deve ser valorizado.<\/p>\n<p>Mas seria perigoso confundir uma situa\u00e7\u00e3o financeira mais s\u00f3lida com imunidade ao que acontece no exterior.<\/p>\n<p>Portugal continua a ter uma d\u00edvida p\u00fablica relevante. \u00c0 medida que t\u00edtulos antigos, emitidos a juros muito baixos, chegarem \u00e0 maturidade, parte deles ter\u00e1 de ser substitu\u00edda por d\u00edvida nova.<\/p>\n<p>Se essa substitui\u00e7\u00e3o ocorrer com juros de 3,5%, 4% ou superiores, a fatura aumentar\u00e1.<\/p>\n<p>E a despesa com juros tem uma caracter\u00edstica desagrad\u00e1vel: n\u00e3o constr\u00f3i hospitais, n\u00e3o melhora escolas, n\u00e3o cria habita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o repara estradas e n\u00e3o reduz impostos. \u00c9 simplesmente o pre\u00e7o pago por dinheiro que j\u00e1 foi gasto.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias tamb\u00e9m chegar\u00e3o \u00e0s fam\u00edlias e \u00e0s empresas. Cr\u00e9dito mais caro significa menor capacidade de investimento, menor rentabilidade de muitos projetos imobili\u00e1rios e maior press\u00e3o sobre os or\u00e7amentos familiares.<\/p>\n<p>Portugal fez uma parte importante do trabalho de consolida\u00e7\u00e3o das suas contas. Seria um erro desperdi\u00e7ar agora essa vantagem.<\/p>\n<p>O problema europeu pode ser ainda mais complicado<\/p>\n<p>A Europa enfrenta uma contradi\u00e7\u00e3o que teremos de resolver rapidamente.<\/p>\n<p>Queremos gastar mais em defesa e, simultaneamente, proteger o Estado social. Precisamos de investir na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, mas tamb\u00e9m em habita\u00e7\u00e3o, ferrovia, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Queremos competir tecnologicamente com americanos e chineses, mas continuamos com taxas de crescimento econ\u00f3mico estruturalmente inferiores \u00e0s dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos fazer tudo indefinidamente recorrendo a d\u00edvida.<\/p>\n<p>Essa discuss\u00e3o ser\u00e1 inevit\u00e1vel, mesmo que politicamente seja desconfort\u00e1vel.<\/p>\n<p>O regresso de taxas de juro estruturalmente mais elevadas obriga os governos europeus a voltar a distinguir aquilo que gostariam de fazer daquilo que efetivamente conseguem pagar.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos t\u00eam futuro?<\/p>\n<p>Claro que t\u00eam.<\/p>\n<p>Anunciar o decl\u00ednio inevit\u00e1vel dos Estados Unidos seria ignorar dois s\u00e9culos de capacidade de adapta\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>Continuam a possuir algumas das melhores universidades do planeta, os mercados financeiros mais profundos, uma enorme capacidade energ\u00e9tica e muitas das empresas tecnologicamente mais avan\u00e7adas do mundo. Dominam \u00e1reas fundamentais da Intelig\u00eancia Artificial e continuam a atrair capital e talento de praticamente todos os continentes.<\/p>\n<p>Poucos pa\u00edses possuem esta combina\u00e7\u00e3o de vantagens.<\/p>\n<p>Mas nem sequer os Estados Unidos conseguem revogar as regras b\u00e1sicas da aritm\u00e9tica.<\/p>\n<p>Uma grande economia consegue viver com d\u00edvida elevada. Pode suportar d\u00e9fices durante bastante tempo e consegue sobreviver a per\u00edodos de juros elevados.<\/p>\n<p>O problema surge quando d\u00edvida elevada, d\u00e9fices elevados e juros elevados passam a existir simultaneamente durante demasiado tempo.<\/p>\n<p>Mais cedo ou mais tarde, Washington ter\u00e1 de tomar decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 necess\u00e1rio discutir despesa, impostos, Seguran\u00e7a Social, Medicare e crescimento econ\u00f3mico. Algumas dessas decis\u00f5es ser\u00e3o politicamente dolorosas. Adi\u00e1-las pode ser ainda mais caro.<\/p>\n<p>Talvez seja esse o significado mais importante dos 40 bili\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>O n\u00famero n\u00e3o representa, por si s\u00f3, o in\u00edcio de uma crise. Representa antes um aviso de que o modelo econ\u00f3mico baseado em d\u00edvida crescente e dinheiro quase gratuito pode estar a chegar ao fim.<\/p>\n<p>Durante anos acredit\u00e1mos que os bancos centrais teriam sempre capacidade para resolver a pr\u00f3xima crise. Talvez tenham.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 que, desta vez, a solu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ter\u00e1 um pre\u00e7o.<\/p>\n<p>E se a confian\u00e7a come\u00e7ar verdadeiramente a desaparecer do mercado de d\u00edvida soberana, a pr\u00f3xima grande crise financeira poder\u00e1 n\u00e3o come\u00e7ar num banco de investimento em Wall Street.<\/p>\n<p>Poder\u00e1 come\u00e7ar precisamente no lugar que durante d\u00e9cadas consider\u00e1mos o mais seguro de todos: a d\u00edvida dos Estados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A d\u00edvida dos Estados Unidos ultrapassou uma fronteira hist\u00f3rica. O problema n\u00e3o s\u00e3o apenas os 40 bili\u00f5es de d\u00f3lares. \u00c9 perceber quem continuar\u00e1 a financiar esta d\u00edvida, a que pre\u00e7o e o que poder\u00e1 acontecer \u00e0 Europa e a Portugal se a confian\u00e7a dos mercados come\u00e7ar a diminuir. 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