{"id":71,"date":"2026-09-05T18:18:41","date_gmt":"2026-09-05T18:18:41","guid":{"rendered":"https:\/\/oinsurgente.pt\/?p=71"},"modified":"2026-09-05T18:18:41","modified_gmt":"2026-09-05T18:18:41","slug":"alteracoes-climaticas-nos-palop-o-calor-chega-primeiro-a-ajuda-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oinsurgente.pt\/?p=71","title":{"rendered":"Altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas nos PALOP: o calor chega primeiro, a ajuda depois"},"content":{"rendered":"<p>Uma fam\u00edlia n\u00e3o precisa de conhecer a temperatura do oceano Pac\u00edfico para perceber que alguma coisa mudou. Basta olhar para o campo onde a chuva n\u00e3o caiu, para o pre\u00e7o do arroz ou para a \u00e1gua que entrou em casa. As altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas podem come\u00e7ar nos gr\u00e1ficos dos cientistas, mas acabam quase sempre nas contas de quem tem menos margem para pagar.<\/p>\n<p>Na edi\u00e7\u00e3o de 5 de setembro, a *New Scientist* aborda um epis\u00f3dio de El Ni\u00f1o que descreve como excecionalmente intenso e explica as suas poss\u00edveis consequ\u00eancias. O nome parece inofensivo. O fen\u00f3meno, nem por isso. Quando as \u00e1guas de uma parte do Pac\u00edfico tropical aquecem acima do habitual, alteram a circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica e a distribui\u00e7\u00e3o da chuva. H\u00e1 regi\u00f5es que ficam mais secas e outras que recebem \u00e1gua a mais. Pelo caminho, podem perder-se colheitas, aumentar os inc\u00eandios e subir os pre\u00e7os dos alimentos.<\/p>\n<p>Importa distinguir as coisas. O El Ni\u00f1o \u00e9 um fen\u00f3meno natural, n\u00e3o \u00e9 outro nome para o aquecimento global. Mas ocorre hoje num planeta j\u00e1 aquecido pelas emiss\u00f5es humanas de gases com efeito de estufa. Uma oscila\u00e7\u00e3o natural encontra, assim, condi\u00e7\u00f5es de partida diferentes. Isso n\u00e3o permite atribuir todas as secas ou tempestades \u00e0 mesma causa, mas obriga a levar os riscos a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Para os Pa\u00edses Africanos de L\u00edngua Oficial Portuguesa, os PALOP, esta conversa est\u00e1 longe de ser uma curiosidade cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Em Angola e Mo\u00e7ambique, a falta de chuva pode atingir diretamente quem depende da agricultura para comer e trabalhar. Em 2024, partes dos dois pa\u00edses estiveram entre as \u00e1reas da \u00c1frica Austral afetadas por uma quebra acentuada da precipita\u00e7\u00e3o. Um estudo de atribui\u00e7\u00e3o identificou o El Ni\u00f1o como um fator determinante nessa seca regional. Para quem perdeu a colheita, a explica\u00e7\u00e3o meteorol\u00f3gica importa. Mas n\u00e3o substitui a pr\u00f3xima refei\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Seria, por\u00e9m, um erro tratar os PALOP como se fossem um \u00fanico territ\u00f3rio, com o mesmo clima e os mesmos problemas. Preparar a resposta em Angola n\u00e3o \u00e9 o mesmo que faz\u00ea-lo em Cabo Verde. E os desafios de uma comunidade agr\u00edcola no interior de Mo\u00e7ambique n\u00e3o coincidem com os de quem vive junto ao mar na Guin\u00e9-Bissau.<\/p>\n<p>Neste \u00faltimo pa\u00eds, o Banco Mundial identifica riscos clim\u00e1ticos para a agricultura, as pescas e as comunidades costeiras. Quando a produ\u00e7\u00e3o e os rendimentos dependem tanto da natureza, a altera\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es ambientais depressa se transforma numa quest\u00e3o de pobreza. N\u00e3o \u00e9 apenas a paisagem que fica amea\u00e7ada. \u00c9 a possibilidade de continuar a viver dela. <\/p>\n<p>Em S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, a liga\u00e7\u00e3o \u00e9 igualmente concreta. H\u00e1 estradas costeiras essenciais para chegar aos mercados, \u00e0s escolas e aos hospitais que sofrem inunda\u00e7\u00f5es frequentes. Proteger a costa significa tamb\u00e9m proteger uma consulta m\u00e9dica, a venda do peixe ou o caminho de uma crian\u00e7a para a escola. A adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica torna-se mais f\u00e1cil de compreender quando deixamos de falar apenas de infraestruturas e come\u00e7amos a falar de quem precisa delas. <\/p>\n<p>Depois h\u00e1 a parte da crise que viaja sem precisar de vento. Se o mau tempo prejudicar colheitas em grandes pa\u00edses produtores, os efeitos podem chegar aos mercados internacionais. Uma fam\u00edlia pode pagar mais por alimentos mesmo que, \u00e0 porta de casa, o c\u00e9u pare\u00e7a igual. A dist\u00e2ncia protege menos do que gostar\u00edamos.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que a express\u00e3o \u201cjusti\u00e7a clim\u00e1tica\u201d deixa de pertencer apenas \u00e0s confer\u00eancias. Quem disp\u00f5e de dinheiro pode refor\u00e7ar a casa, instalar rega, contratar um seguro ou mudar de lugar. Quem n\u00e3o disp\u00f5e desses recursos fica mais exposto. O mesmo perigo n\u00e3o produz a mesma trag\u00e9dia em todas as vidas.<\/p>\n<p>Portugal e os pa\u00edses africanos de l\u00edngua portuguesa t\u00eam espa\u00e7o para fazer mais em conjunto. Partilhar informa\u00e7\u00e3o meteorol\u00f3gica, formar t\u00e9cnicos, melhorar os alertas, proteger reservas de \u00e1gua e apoiar uma agricultura mais preparada para a irregularidade da chuva s\u00e3o formas concretas de coopera\u00e7\u00e3o. A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica tamb\u00e9m deve servir para levar eletricidade fi\u00e1vel a escolas, centros de sa\u00fade e pequenas empresas.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos de transformar cada previs\u00e3o numa senten\u00e7a de cat\u00e1strofe. Precisamos de transformar conhecimento em prepara\u00e7\u00e3o, enquanto ainda h\u00e1 tempo para escolher.<\/p>\n<p>Porque uma comunidade de l\u00edngua n\u00e3o se mede apenas pelos discursos que consegue fazer em conjunto. Mede-se tamb\u00e9m pela capacidade de garantir que, quando falta a \u00e1gua ou sobe o mar, ningu\u00e9m fica sozinho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma fam\u00edlia n\u00e3o precisa de conhecer a temperatura do oceano Pac\u00edfico para perceber que alguma coisa mudou. Basta olhar para o campo onde a chuva n\u00e3o caiu, para o pre\u00e7o do arroz ou para a \u00e1gua que entrou em casa. 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