{"id":90,"date":"2026-10-12T13:59:31","date_gmt":"2026-10-12T13:59:31","guid":{"rendered":"https:\/\/oinsurgente.pt\/?p=90"},"modified":"2026-10-12T13:59:31","modified_gmt":"2026-10-12T13:59:31","slug":"o-cerco-a-montenegro-faz-se-a-passos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oinsurgente.pt\/?p=90","title":{"rendered":"O cerco a Montenegro faz-se a Passos"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma coisa particularmente desagrad\u00e1vel em ser Lu\u00eds Montenegro: descobrir que a oposi\u00e7\u00e3o mais inc\u00f3moda pode n\u00e3o estar sentada \u00e0 sua frente, na Assembleia da Rep\u00fablica, mas instalada na mem\u00f3ria do seu pr\u00f3prio partido.<\/p>\n<p>Pedro Passos Coelho voltou a falar. E, como tem acontecido ultimamente, cada vez que fala, Lu\u00eds Montenegro fica com mais uma preocupa\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a justificar que o primeiro-ministro tenha dois gabinetes de comunica\u00e7\u00e3o: um para responder \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o e outro para responder aos antigos l\u00edderes do PSD.<\/p>\n<p>Desta vez, Passos foi particularmente interessante. N\u00e3o excluiu regressar \u00e0 pol\u00edtica se o PSD n\u00e3o apresentar resultados satisfat\u00f3rios. Traduzindo para portugu\u00eas corrente: deseja muito sucesso a Montenegro, porque, se n\u00e3o tiver sucesso, est\u00e1 dispon\u00edvel para lhe ocupar o lugar.<\/p>\n<p>\u00c9 uma forma curiosa de manifestar solidariedade. Uma esp\u00e9cie de bombeiro que aparece junto de uma casa e informa o propriet\u00e1rio de que, se aquilo come\u00e7ar a arder, est\u00e1 dispon\u00edvel para ficar com o terreno.<\/p>\n<p>Mas a entrevista \u00e0 SIC Not\u00edcias trouxe uma novidade ainda mais interessante. Passos Coelho elogiou Andr\u00e9 Ventura, reconhecendo-lhe bastante m\u00e9rito e uma capacidade de iniciativa not\u00e1vel.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m perceber a delicadeza da situa\u00e7\u00e3o. Montenegro passou anos a explicar que com o Chega era n\u00e3o. Passos aparece e explica que talvez fosse importante conversar com o Chega. Ventura agradece, naturalmente. Afinal, quando um antigo primeiro-ministro do PSD reconhece publicamente o seu m\u00e9rito, o l\u00edder do Chega recebe uma esp\u00e9cie de certificado de qualidade emitido pela concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>E Montenegro? Montenegro fica numa posi\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria. Tem um advers\u00e1rio pol\u00edtico chamado Ventura e um antigo l\u00edder do seu partido que elogia esse advers\u00e1rio. \u00c9 um bocadinho como estar num jogo de futebol e descobrir que o antigo capit\u00e3o da nossa equipa est\u00e1 na bancada a elogiar o ponta de lan\u00e7a advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>O problema, contudo, n\u00e3o come\u00e7ou ontem.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o, Passos j\u00e1 criticava a aus\u00eancia de reformas profundas. Em maio, voltou a insistir na impaci\u00eancia dos portugueses e falou de pol\u00edticos posti\u00e7os, sem esclarecer exatamente a quem se referia. Em setembro, exigia que Montenegro estivesse \u00e0 altura da tradi\u00e7\u00e3o reformista do PSD.<\/p>\n<p>Agora, em outubro, admite regressar caso as coisas n\u00e3o corram bem.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui uma evolu\u00e7\u00e3o interessante. Primeiro, Passos explica o que deve ser feito. Depois, explica que n\u00e3o est\u00e1 a ser feito. Finalmente, admite que talvez tenha de ser ele a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma sequ\u00eancia perfeitamente leg\u00edtima numa democracia. Mas tamb\u00e9m \u00e9 a sequ\u00eancia que torna desconfort\u00e1vel a vida de qualquer l\u00edder partid\u00e1rio.<\/p>\n<p>E \u00e9 aqui que surge a quest\u00e3o do cerco a Montenegro.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio imaginar reuni\u00f5es clandestinas, conspira\u00e7\u00f5es em restaurantes ou militantes a afiar punhais numa sede distrital. Na pol\u00edtica, um cerco pode fazer-se atrav\u00e9s de entrevistas, confer\u00eancias e declara\u00e7\u00f5es cuidadosamente colocadas no espa\u00e7o p\u00fablico. Pode nem sequer existir uma opera\u00e7\u00e3o organizada. Basta haver uma alternativa permanentemente dispon\u00edvel e um l\u00edder permanentemente comparado com ela.<\/p>\n<p>Montenegro foi reeleito l\u00edder do PSD em maio, sem advers\u00e1rios internos. Isto n\u00e3o \u00e9 um pormenor. \u00c9 o dado que impede confundir tens\u00e3o pol\u00edtica com uma revolta partid\u00e1ria j\u00e1 demonstrada.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que uma elei\u00e7\u00e3o interna n\u00e3o elimina o peso de quem, estando fora da lideran\u00e7a, continua a disputar a orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do partido.<\/p>\n<p>Sobretudo quando a discuss\u00e3o deixa de ser apenas sobre a velocidade das reformas e passa a envolver uma quest\u00e3o fundamental: com quem deve o PSD governar?<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente a\u00ed que as diferen\u00e7as entre Passos e Montenegro se tornam mais vis\u00edveis. Um insiste que era necess\u00e1rio explorar um entendimento com o Chega e a Iniciativa Liberal. O outro tem defendido que n\u00e3o deve existir uma solu\u00e7\u00e3o de governo com o Chega.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de duas maneiras de fazer a mesma pol\u00edtica. S\u00e3o entendimentos distintos sobre as alian\u00e7as e a identidade pol\u00edtica do PSD.<\/p>\n<p>E Andr\u00e9 Ventura observa esta diverg\u00eancia numa posi\u00e7\u00e3o bastante confort\u00e1vel: n\u00e3o precisa de inventar uma divis\u00e3o na direita quando os seus protagonistas se encarregam de a discutir publicamente.<\/p>\n<p>Talvez Passos nunca regresse. Talvez Montenegro consiga afirmar a sua estrat\u00e9gia e superar estas diverg\u00eancias. Talvez tudo isto n\u00e3o passe de um debate pol\u00edtico intenso entre duas figuras com conce\u00e7\u00f5es diferentes do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas uma coisa j\u00e1 se percebe: Montenegro governa Portugal e, ao mesmo tempo, tem de explicar continuamente por que raz\u00e3o n\u00e3o governa como Passos Coelho gostaria.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel de gerir. \u00c9 apenas particularmente ingrata.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque, habitualmente, quando um pol\u00edtico perde o apoio de um antigo l\u00edder, o problema \u00e9 encontrar uma alternativa.<\/p>\n<p>Neste caso, a alternativa n\u00e3o precisa de ser encontrada.<\/p>\n<p>Est\u00e1 constantemente a dar entrevistas.<\/p>\n<p>E Montenegro come\u00e7a a perceber que, na pol\u00edtica, h\u00e1 cerros dif\u00edceis de subir. Mas h\u00e1 Passos ainda mais dif\u00edceis de contornar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma coisa particularmente desagrad\u00e1vel em ser Lu\u00eds Montenegro: descobrir que a oposi\u00e7\u00e3o mais inc\u00f3moda pode n\u00e3o estar sentada \u00e0 sua frente, na Assembleia da Rep\u00fablica, mas instalada na mem\u00f3ria do seu pr\u00f3prio partido. Pedro Passos Coelho voltou a falar. 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