A humanidade nunca gostou de andar por cá sem uma pequena proteção no bolso. Uma medalha, uma pedra, um fio oferecido por alguém. Qualquer coisa que ajudasse a enfrentar a doença, o azar e esse incómodo de sabermos que a vida tem fim, embora ninguém nos diga exatamente quando.
Hoje, essa proteção pode ser um anel inteligente ou um relógio que acompanha o coração. Mudámos os materiais e aperfeiçoámos os instrumentos. A necessidade de sentir que temos algum controlo continua muito parecida.
Há qualquer coisa de familiar no gesto de consultar o Oura Ring, a pulseira WHOOP ou o smartwatch logo pela manhã. Procuramos saber como correu a noite, se recuperámos do esforço e se estamos preparados para o dia. Mas, por trás dessas perguntas, pode estar outra, mais difícil de admitir: está tudo bem comigo?
É uma pergunta antiga. Agora recebe uma resposta com gráficos.
Não acho que estes equipamentos sejam uma moda sem utilidade. Podem ajudar-nos a perceber que dormimos pouco, que passamos demasiadas horas sentados ou que andamos a exigir mais do corpo do que aquilo que lhe devolvemos em descanso. Para quem precisa de um incentivo para sair de casa e caminhar, uma pulseira pode ser uma boa compra. O problema é a facilidade com que confundimos conhecer alguns sinais do corpo com ter o corpo sob controlo.
Um anel mede. Não protege por estar no dedo. Ainda assim, é compreensível que lhe atribuamos esse conforto. Tê-lo connosco permite sentir que alguma coisa está atenta enquanto tratamos do resto da vida. Talvez seja aí que estes dispositivos se aproximam dos velhos amuletos: na confiança que depositamos neles, por vezes maior do que aquilo que podem oferecer.
Com a inteligência artificial, essa relação ganha outra intimidade. Já não recebemos apenas números. Recebemos explicações, conselhos e sugestões sobre como devemos viver o dia. A Oura inclui na sua proposta um assistente de saúde com IA, capaz de ajudar a interpretar a informação recolhida. É conveniente ter essa tradução à mão. Também nos habitua a procurar fora de nós uma resposta sobre aquilo que sentimos. ouraring.com
Imagino alguém a acordar bem-disposto, depois de uma noite que lhe pareceu tranquila, e a descobrir no telemóvel que dormiu mal. A partir daí, talvez passe a reparar no cansaço que ainda não tinha sentido. A pontuação acompanha-o até ao almoço. Ao deitar, preocupa-se em melhorar o resultado. Dormir transforma-se numa tarefa em que é preciso ter boa nota.
Esta ansiedade em torno do sono perfeito tem merecido atenção médica. A Academia Americana de Medicina do Sono alerta para a preocupação excessiva com os dados do descanso, associada à chamada ortossónia. Podemos acabar a dormir pior de tanto tentar confirmar que dormimos bem. aasm.org
Por isso, antes de escolher o aparelho, convém perceber para que o queremos. A oferta é grande e o mais caro nem sempre é o que melhor serve a nossa vida.
Para começar a acompanhar a atividade e o sono sem gastar muito, a Xiaomi Smart Band 10 parece-me uma escolha sensata. A versão consultada na loja portuguesa estava a 54,99 euros em promoção, com autonomia anunciada de até 21 dias. Para quem quer sobretudo caminhar mais, ganhar alguma regularidade e prestar atenção ao descanso, pode chegar perfeitamente. Nem toda a mudança de hábitos precisa de um investimento de várias centenas de euros. www.xiaomistore.pt
O Oura Ring atrai por outra razão. É discreto, não tem um ecrã a pedir atenção e concentra boa parte da experiência no acompanhamento do descanso e na interpretação dos dados. O Ring 5 anuncia entre seis e nove dias de autonomia. Mas o preço de compra é apenas uma parte da decisão: a subscrição europeia custa 5,99 euros por mês ou 69,99 euros por ano. Quem o escolher deve contar com essa despesa e perguntar se vai aproveitar aquilo por que está a pagar. ouraring.com
Para quem prefere o formato de anel e dispensa mensalidades, o RingConn Gen 2 Air merece comparação. A página europeia consultada apresenta-o por 209 euros, sem subscrição obrigatória e com autonomia anunciada de até dez dias. É uma alternativa interessante pelo custo de utilização, embora isso não permita concluir que tenha a mesma precisão ou qualidade de interpretação de outros equipamentos. de.ringconn.com
Já a WHOOP parece-me mais adequada a quem treina com frequência e quer acompanhar a relação entre esforço, recuperação e sono. Os planos europeus consultados custam 199, 264 ou 399 euros por ano, com equipamento incluído. Para alguém que usa essa informação para organizar o treino, a despesa pode ter sentido. Para quem procura apenas um lembrete para dar uma volta ao fim do dia, há soluções bastante mais económicas. www.whoop.com
Nos relógios, o Apple Watch SE 3, desde 279 euros, oferece uma combinação interessante de atividade, sono e segurança para quem já tem iPhone. A deteção de quedas é uma das suas funcionalidades, mas a autonomia anunciada de até 18 horas exige alguma atenção aos carregamentos. Quem privilegia exercício e vários dias de bateria pode considerar um Garmin vívoactive 6, que anuncia até 11 dias de autonomia. A escolha depende tanto destas diferenças práticas como da lista de sensores. Um relógio que fica frequentemente na gaveta ou a carregar serve de pouco. www.apple.com
Não escolheria, portanto, um vencedor para toda a gente. Escolheria um equipamento adequado ao orçamento, confortável para usar e útil para um objetivo concreto. E teria cuidado com as promessas: acompanhar tendências de saúde não equivale a fazer um diagnóstico. Os dados podem ajudar numa avaliação, mas não substituem exames validados nem a interpretação de um profissional. aasm.org
O que me deixa a pensar é esta disponibilidade para pagar, mês após mês, por uma sensação de vigilância. Compramos funcionalidades, evidentemente. Mas talvez compremos também algum sossego. A ideia de que, se alguma coisa mudar, saberemos a tempo. De que o inesperado terá a consideração de nos avisar.
Percebo essa vontade. Todos temos pessoas com quem queremos continuar, coisas por fazer e planos que ainda não cabem nos próximos anos. Cuidar da saúde é também uma forma de cuidar desse futuro.
Só não podemos exigir a um objeto que resolva a nossa dificuldade em aceitar a incerteza. Podemos usá-lo para melhorar hábitos, reconhecer limites e procurar ajuda. Depois, será preciso pousar o telemóvel e fazer alguma coisa com essa informação.
Talvez o melhor destes novos amuletos seja levar-nos a caminhar, a descansar ou a cuidar mais de nós. Se conseguir isso, já terá servido para bastante.
Mas, se passarmos o dia a confirmar que estamos vivos, arriscamo-nos a deixar a vida à espera.


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