Uma reflexão sobre a entrevista de Maria João Avillez a Sérgio Sousa Pinto no novo programa da SIC Notícias, onde entre outras coisas se falou na crise da social-democracia e a curiosa capacidade da política para ignorar a realidade.
Há uma coisa extraordinária na política portuguesa: quanto mais dificuldades as pessoas têm, mais os políticos se esforçam por lhes explicar que estão enganadas.
Um jovem não consegue comprar casa, vive com os pais aos trinta anos, trabalha, paga impostos e descobre que o seu salário só chega para alugar metade de um apartamento. Liga a televisão e fica a saber que a economia está a crescer, o desemprego está controlado e o país vive um momento de grande confiança.
Naturalmente, a primeira conclusão do jovem é que deve estar a viver no país errado.
Foi precisamente esta distância entre o discurso político e a vida das pessoas que atravessou a entrevista de Sérgio Sousa Pinto a Maria João Avillez. Uma conversa que começou nas manifestações pela habitação, passou pelo Partido Socialista, atravessou a França, a Alemanha, os Estados Unidos e a União Europeia e terminou na jardinagem. O que, pensando bem, faz sentido. A política europeia parece cada vez mais um jardim onde ninguém sabe o que plantou, mas todos se queixam de que não cresce.
Sérgio Sousa Pinto disse algo que deveria ser relativamente pacífico: as pessoas têm razões para protestar. O problema da habitação existe, os salários são insuficientes e há uma geração inteira que começa a desconfiar de que o elevador social foi substituído por uma escada rolante a descer.
E, no entanto, uma parte da resposta política continua a ser uma espécie de pedagogia da felicidade obrigatória. As pessoas queixam-se, os governos apresentam indicadores. As pessoas mostram as contas do supermercado, os governos mostram gráficos. E, quando a conversa não corre bem, surge a habitual promessa de firmeza.
Firmeza é uma palavra muito apreciada na política. Sobretudo porque é mais fácil prometer firmeza do que construir habitação.
Mas a entrevista foi bastante além da questão habitacional.
Sérgio Sousa Pinto apresentou uma tese desconfortável para a própria família política: o Partido Socialista corre o risco de se tornar irrelevante se continuar a oferecer respostas antigas a problemas novos.
E aqui chegamos a um dos momentos mais interessantes da conversa. Os valores da social-democracia, segundo Sousa Pinto, continuam atuais. A justiça social, a igualdade de oportunidades, a proteção dos mais vulneráveis e a defesa dos serviços públicos não passaram de moda. O problema são os instrumentos utilizados para concretizar esses valores.
É uma distinção importante.
Durante décadas, uma parte da esquerda parece ter confundido os princípios com as ferramentas. Como se defender a justiça social implicasse necessariamente defender todas as soluções fiscais, administrativas e económicas utilizadas desde o século passado.
É como insistir em reparar um computador moderno com uma chave inglesa porque foi com aquela ferramenta que o nosso avô construiu uma casa.
O exemplo dos impostos é particularmente interessante. Sousa Pinto questiona por que razão a redução da carga fiscal sobre o trabalho ou sobre as empresas deve ser automaticamente considerada uma heresia socialista.
A pergunta merece discussão. Reduzir impostos não garante, por si só, crescimento económico, tal como aumentar a despesa pública não garante melhores serviços. Tudo depende de como se faz, de quem beneficia e de quais são os resultados.
Mas talvez seja precisamente esse o debate que falta: discutir consequências em vez de distribuir certificados de pureza ideológica.
Portugal precisa de criar riqueza. É difícil distribuir aquilo que não existe. Mas também convém recordar que a riqueza não se distribui sozinha. Se bastasse esperar que o crescimento chegasse a todos, provavelmente já teríamos resolvido o problema da desigualdade há algumas revoluções industriais.
O desafio de uma social-democracia moderna consiste precisamente em conciliar as duas coisas: uma economia capaz de crescer e uma sociedade capaz de garantir que esse crescimento melhora efetivamente a vida das pessoas.
Entretanto, no Partido Socialista, discute-se o futuro, a liderança e as diferentes sensibilidades internas. Sousa Pinto reconhece a gravidade da crise e valoriza a coragem de Luís Carneiro em assumir responsabilidades.
A questão, porém, não é apenas saber quem conduz o partido. É perceber para onde pretende conduzi-lo.
Porque trocar o motorista sem discutir o destino pode melhorar a viagem durante alguns quilómetros, mas não impede que o autocarro continue a circular na direção errada.
A propósito de viagens, surge o Bloco Central. Sousa Pinto rejeita uma nova coligação entre PS e PSD, receando que essa solução transforme o Chega no grande polo alternativo.
A sua posição contém uma distinção relevante: os partidos não precisam de governar juntos para serem capazes de conversar.
Parece uma evidência. Mas, na política portuguesa, o diálogo entre adversários é frequentemente tratado como uma atividade clandestina.
O próprio Sousa Pinto participa num estudo promovido pela Associação Comercial do Porto com Pedro Passos Coelho. Dois políticos de tradições diferentes a trabalharem sobre problemas estruturais do país. Não é necessário concordarem em tudo para reconhecerem que podem existir questões que merecem reflexão conjunta.
Aliás, se duas pessoas de partidos diferentes não podem estudar a economia portuguesa sem serem acusadas de preparar um casamento político, talvez o problema da democracia já não seja apenas económico.
E depois há a Europa.
A Europa que durante décadas se apresentou como exemplo de prosperidade, estabilidade e progresso social parece hoje menos segura do seu lugar no mundo.
França e Alemanha enfrentam dificuldades, a economia europeia procura recuperar dinamismo e a dependência militar dos Estados Unidos tornou-se particularmente evidente.
Sousa Pinto descreve um continente em declínio e uma classe política que parece não ter encontrado resposta para essa transformação.
É uma visão pessimista, mas que obriga a pensar.
A União Europeia continua a conseguir produzir documentos extensíssimos sobre o futuro. A dificuldade começa quando o futuro decide chegar antes de o documento estar aprovado.
Do outro lado do Atlântico, Donald Trump representa, na análise de Sousa Pinto, uma expressão das transformações económicas e sociais da sociedade americana. A perda de empregos industriais, a globalização e o enfraquecimento de segmentos da classe média ajudam a compreender o descontentamento que alimenta determinadas escolhas eleitorais.
Na Europa, esse mal-estar assume outras formas. Crescem os movimentos de protesto, os partidos tradicionais perdem influência e multiplicam-se propostas que prometem simultaneamente menos impostos, mais despesa e soluções imediatas para problemas acumulados durante décadas.
Seria maravilhoso se a aritmética também aceitasse programas eleitorais. Infelizmente, continua a insistir em fazer contas.
O que mais me chamou a atenção na entrevista, contudo, foi a crítica de Sousa Pinto à transformação da política numa sucessão permanente de acontecimentos mediáticos.
Já não se discutem objetivos. Discutem-se agendas.
O importante deixou de ser aquilo que se pretende alcançar daqui a dez anos. Passou a ser aquilo que se consegue anunciar amanhã de manhã.
Uma política de conferências de imprensa, publicações nas redes sociais e declarações suficientemente polémicas para sobreviverem até ao próximo ciclo noticioso.
E talvez aqui esteja uma parte importante da explicação para a crise de confiança nas democracias.
As pessoas não esperam que os políticos resolvam todos os problemas. Mas esperam que reconheçam os problemas que existem.
Não querem necessariamente discursos brilhantes. Querem conseguir pagar a casa, educar os filhos, ter acesso a cuidados de saúde e acreditar que o seu trabalho lhes permitirá viver melhor.
A democracia não perde credibilidade apenas quando surgem movimentos que a contestam. Também a perde quando quem a representa deixa de compreender aquilo que preocupa os cidadãos.
A entrevista terminou com Sérgio Sousa Pinto a falar do seu jardim e da dificuldade em controlar o crescimento das plantas. Algumas crescem demasiado, outras não crescem, outras insistem em ocupar espaços onde não foram convidadas.
Talvez seja uma metáfora involuntária para a própria democracia.
Não basta plantar boas ideias e esperar que cresçam. É necessário cuidar delas, corrigir erros, adaptar métodos e perceber que a realidade tem uma irritante tendência para não obedecer aos nossos planos.
A social-democracia não precisa de abandonar os seus valores. Precisa de demonstrar que continua a saber transformá-los em melhores condições de vida.
E os partidos democráticos precisam de recuperar uma coisa aparentemente antiquada: a capacidade de pensar para além das próximas eleições.
No fundo, fiquei com uma conclusão simples depois de ouvir Sérgio Sousa Pinto.
O problema da política não é a falta de pessoas capazes de explicar por que razão o país está melhor. É a falta de resultados capazes de dispensar essa explicação.
Porque, no dia em que um jovem conseguir comprar casa com o seu salário, não será preciso um ministro ir à televisão convencê-lo de que Portugal está a progredir.
Ele provavelmente já terá percebido.
E talvez até tenha tempo para começar a fazer jardinagem.
Aos que tiverem curiosidade em ver a entrevista deixo o site da SIC Notícias: https://sicnoticias.pt/autores/2022-05-15-maria-joao-avillez-96455ec7


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