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O INSURGENTE
Crónicas

Alterações climáticas nos PALOP: o calor chega primeiro, a ajuda depois

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Uma família não precisa de conhecer a temperatura do oceano Pacífico para perceber que alguma coisa mudou. Basta olhar para o campo onde a chuva não caiu, para o preço do arroz ou para a água que entrou em casa. As alterações climáticas podem começar nos gráficos dos cientistas, mas acabam quase sempre nas contas de quem tem menos margem para pagar.

Na edição de 5 de setembro, a *New Scientist* aborda um episódio de El Niño que descreve como excecionalmente intenso e explica as suas possíveis consequências. O nome parece inofensivo. O fenómeno, nem por isso. Quando as águas de uma parte do Pacífico tropical aquecem acima do habitual, alteram a circulação atmosférica e a distribuição da chuva. Há regiões que ficam mais secas e outras que recebem água a mais. Pelo caminho, podem perder-se colheitas, aumentar os incêndios e subir os preços dos alimentos.

Importa distinguir as coisas. O El Niño é um fenómeno natural, não é outro nome para o aquecimento global. Mas ocorre hoje num planeta já aquecido pelas emissões humanas de gases com efeito de estufa. Uma oscilação natural encontra, assim, condições de partida diferentes. Isso não permite atribuir todas as secas ou tempestades à mesma causa, mas obriga a levar os riscos a sério.

Para os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, os PALOP, esta conversa está longe de ser uma curiosidade científica.

Em Angola e Moçambique, a falta de chuva pode atingir diretamente quem depende da agricultura para comer e trabalhar. Em 2024, partes dos dois países estiveram entre as áreas da África Austral afetadas por uma quebra acentuada da precipitação. Um estudo de atribuição identificou o El Niño como um fator determinante nessa seca regional. Para quem perdeu a colheita, a explicação meteorológica importa. Mas não substitui a próxima refeição.

Seria, porém, um erro tratar os PALOP como se fossem um único território, com o mesmo clima e os mesmos problemas. Preparar a resposta em Angola não é o mesmo que fazê-lo em Cabo Verde. E os desafios de uma comunidade agrícola no interior de Moçambique não coincidem com os de quem vive junto ao mar na Guiné-Bissau.

Neste último país, o Banco Mundial identifica riscos climáticos para a agricultura, as pescas e as comunidades costeiras. Quando a produção e os rendimentos dependem tanto da natureza, a alteração das condições ambientais depressa se transforma numa questão de pobreza. Não é apenas a paisagem que fica ameaçada. É a possibilidade de continuar a viver dela.

Em São Tomé e Príncipe, a ligação é igualmente concreta. Há estradas costeiras essenciais para chegar aos mercados, às escolas e aos hospitais que sofrem inundações frequentes. Proteger a costa significa também proteger uma consulta médica, a venda do peixe ou o caminho de uma criança para a escola. A adaptação climática torna-se mais fácil de compreender quando deixamos de falar apenas de infraestruturas e começamos a falar de quem precisa delas.

Depois há a parte da crise que viaja sem precisar de vento. Se o mau tempo prejudicar colheitas em grandes países produtores, os efeitos podem chegar aos mercados internacionais. Uma família pode pagar mais por alimentos mesmo que, à porta de casa, o céu pareça igual. A distância protege menos do que gostaríamos.

É aqui que a expressão “justiça climática” deixa de pertencer apenas às conferências. Quem dispõe de dinheiro pode reforçar a casa, instalar rega, contratar um seguro ou mudar de lugar. Quem não dispõe desses recursos fica mais exposto. O mesmo perigo não produz a mesma tragédia em todas as vidas.

Portugal e os países africanos de língua portuguesa têm espaço para fazer mais em conjunto. Partilhar informação meteorológica, formar técnicos, melhorar os alertas, proteger reservas de água e apoiar uma agricultura mais preparada para a irregularidade da chuva são formas concretas de cooperação. A transição energética também deve servir para levar eletricidade fiável a escolas, centros de saúde e pequenas empresas.

Não precisamos de transformar cada previsão numa sentença de catástrofe. Precisamos de transformar conhecimento em preparação, enquanto ainda há tempo para escolher.

Porque uma comunidade de língua não se mede apenas pelos discursos que consegue fazer em conjunto. Mede-se também pela capacidade de garantir que, quando falta a água ou sobe o mar, ninguém fica sozinho.

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