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O INSURGENTE
Opinião

Moção de censura: o Governo fecha a cortina, o PS segura o varão

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Portugal prepara-se para discutir uma moção de censura ao Governo e continua sem resolver uma questão bastante mais simples: conseguir uma explicação que não precise de outra explicação na semana seguinte. Temos um ministro da Administração Interna envolvido em polémicas, um primeiro-ministro que mantém a confiança, um PS que exige responsabilidades e um Chega que exige palco. O cidadão acompanha tudo com a satisfação de quem paga uma consulta e assiste a uma discussão entre os médicos sobre quem fica melhor na fotografia.

Comecemos pelo PSD. Luís Montenegro declarou em julho que confiava “plenamente, plenamente” em Luís Neves. A repetição é reconfortante. Quando faltam elementos para convencer os outros, há sempre a possibilidade de dizer a mesma coisa duas vezes. O primeiro-ministro assegurou também que o ministro prestaria todos os esclarecimentos. A confiança chegou primeiro; os esclarecimentos ficaram de vir ter com ela.

Entretanto, Sebastião Bugalho perguntou o que faltava responder e quantas vezes mais teria o ministro de se explicar. É uma curiosa conceção de transparência: cabe ao cidadão justificar por que razão ainda não ficou esclarecido. Nesta versão do PSD, a janela está aberta, a cortina é que deve permanecer corrida por razões de estabilidade.

As notícias sobre obras num imóvel de Luís Neves e sobre a utilização de uma viatura apreendida exigem rigor. O ministro apresentou explicações e, no caso do automóvel, invocou um comodato legalmente autorizado. Uma suspeita não é uma condenação. Mas uma autorização também não dispensa explicar, com documentos e clareza, aquilo que está em causa. Quem tutela forças que exigem aos cidadãos o cumprimento da lei deve compreender particularmente bem o valor de uma resposta concreta.

Depois aparece o PS, com a delicadeza de quem vai reclamar ao restaurante e começa por garantir que deixa gorjeta. José Luís Carneiro responsabiliza Montenegro, denuncia a degradação da confiança nas instituições e assegura que não será pelos socialistas que haverá uma crise política. O Governo recebe, assim, uma crítica severa acompanhada de uma almofada.

Recusar a agenda do Chega é perfeitamente defensável. O problema surge quando essa recusa parece esgotar a agenda própria. O PS não precisa de votar uma moção de André Ventura para demonstrar coragem. Precisa de dizer que consequências políticas exige, que respostas considera indispensáveis e o que fará se elas não chegarem. Sem isso, a prudência começa a parecer medo com um assessor de comunicação.

A estabilidade merece respeito. Mas convinha esclarecer se estamos a proteger a estabilidade do país ou o conforto de quem governa. São coisas diferentes, embora em São Bento possam ocupar o mesmo sofá.

Quanto ao Chega, há um pormenor delicioso: Ventura apresentou uma moção cuja aprovação depende do PS, depois de o PS ter sinalizado que não provocaria uma crise. O gesto permite-lhe representar o homem que tenta derrubar o Governo com a segurança de quem já confirmou que alguém está a segurar a escada. Se perder, denuncia os partidos que o impediram. O insucesso parlamentar fica disponível para utilização publicitária.

À esquerda, as posições têm diferenças. O PCP censurou a política do Governo e acusou o Chega de disfarçar as suas convergências com a direita, reservando o voto. O Bloco chamou a atenção para habitação, salários e custo de vida. O Livre denunciou o aproveitamento mediático e defendeu o tempo do escrutínio parlamentar. São objeções relevantes. Também trazem uma responsabilidade: mostrar como se exige transparência sem deixar Ventura apropriar-se dessa exigência.

O calendário oferece a melhor caricatura deste episódio. A moção foi marcada para 8 de setembro, precisamente o dia previsto para ouvir o ministro em comissão, audição que não acontecerá nessa data. O consenso dos partidos permitiu acelerar o debate sobre a sobrevivência do Governo. As perguntas ao ministro tiveram de mudar de lugar.

É este o retrato: o PSD trata a confiança como resposta, o PS arrisca transformar a responsabilidade em imobilidade e o Chega converte a indignação em tempo de antena.

No fim, todos terão explicado a sua estratégia. Talvez um dia sobre tempo para explicar o caso.

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