Normalmente é pronunciada por alguém que avança dois passos enquanto espera, sinceramente, que apareçam três pessoas para o segurar.
A política portuguesa parece ter chegado exatamente a esse ponto.
O PS e o Chega descobriram subitamente que o IVA dos combustíveis é muito elevado e que os portugueses pagam demasiado pela alimentação. Até aqui, tudo bem. O problema começa quando tentamos perceber quem descobriu primeiro.
José Luís Carneiro diz que foi o PS.
André Ventura diz que agora é que vamos ver se o PS quer mesmo baixar o IVA.
Carneiro responde que o Chega já teve oportunidade de o fazer e votou contra.
Ventura responde que o PS é hipócrita.
E assim chegámos a uma situação extraordinária: aparentemente, todos querem baixar o IVA, mas passam uma quantidade apreciável do seu tempo a explicar por que razão os outros não querem baixar o IVA.
O contribuinte, entretanto, continua a abastecer.
É uma espécie de discussão entre dois bombeiros sobre quem teve primeiro a ideia de apagar o incêndio, enquanto o proprietário da casa pergunta discretamente se alguém se importa de abrir a mangueira.
Mas há aqui uma questão mais interessante do que o IVA.
Há uma luta para saber quem é, verdadeiramente, a oposição.
O Chega quer provar que é a alternativa ao Governo. O PS também quer provar que é a alternativa ao Governo. Portanto, ambos precisam de bater no Governo com força suficiente para parecerem oposição, mas convém não bater com tanta força que o Governo caia.
É aqui que regressamos ao “agarrem-me”.
Ventura apresenta propostas, desafia Carneiro e aumenta a pressão sobre Luís Montenegro. Mas uma coisa é pressionar o Governo. Outra, bastante diferente, é ficar com a responsabilidade política de o mandar abaixo.
Carneiro também endurece o discurso, acusa o Governo de beneficiar fiscalmente da subida dos combustíveis e tenta recuperar para o PS o estatuto de grande alternativa governativa.
Mas também aqui existe um pequeno problema chamado aritmética.
Na política portuguesa pode ganhar-se uma eleição e descobrir-se, na manhã seguinte, que isso era apenas a parte fácil.
José Luís Carneiro sabe que não lhe basta o PS ficar em primeiro lugar. Precisa de encontrar uma maioria parlamentar capaz de sustentar um Governo. Sem ela, uma vitória eleitoral pode transformar-se rapidamente numa fotografia bonita da noite eleitoral seguida de várias reuniões bastante menos bonitas nos dias seguintes.
E esse é talvez o maior dilema do atual PS.
Carneiro precisa de crescer à esquerda e ao centro sem assustar o centro. Precisa de se distinguir da AD sem entregar o eleitorado moderado a Montenegro. Precisa de combater Ventura sem transformar Ventura no seu principal adversário. E, sobretudo, precisa de demonstrar que consegue fazer aquilo que Pedro Nuno Santos não conseguiu: construir uma alternativa eleitoral que seja também uma alternativa parlamentar.
Caso contrário, existe o risco de o PS ganhar mais votos, eventualmente até eleições, e continuar sem conseguir governar.
Nesse cenário, José Luís Carneiro poderia descobrir rapidamente que a política tem uma modalidade particularmente cruel: ganhar e perder ao mesmo tempo. E Pedro Nuno Santos deixaria de parecer apenas o anterior secretário-geral. Passaria também a parecer o homem que já tinha visto esse filme.
Do lado do Chega, o problema é diferente.
Ventura precisa de mostrar que condiciona o Governo, mas quanto mais o condiciona mais difícil se torna explicar que nada tem a ver com ele. Se viabiliza decisões importantes, acusam-no de muleta. Se as inviabiliza, acusam-no de instabilidade. Se derruba o Governo, terá de explicar ao país por que razão provocou novas eleições. Se não o derruba, terá de explicar aos seus eleitores por que razão o Governo que passa os dias a atacar continua tranquilamente em funções.
Não é fácil ser antissistema quando o sistema começa a depender dos nossos votos.
Por isso, PS e Chega encontram-se numa situação curiosa.
Os dois querem fazer mossa no Governo.
Os dois querem ocupar o espaço de alternativa.
Os dois querem que Luís Montenegro sangre politicamente.
Mas nenhum parece particularmente interessado em ser encontrado junto ao corpo com a arma na mão.
E assim continuará provavelmente o espetáculo parlamentar: propostas, desafios, conferências de imprensa, acusações de hipocrisia, acusações de mentira e solenes garantias de que desta vez é mesmo para avançar.
“Agarrem-me, senão vou-me a ele.”
O problema é que ninguém larga ninguém.
E Montenegro, enquanto eles discutem quem lhe quer bater mais, vai continuando a governar.


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