Há qualquer coisa de extraordinariamente portuguesa na política nacional: quando o terreno começa a tremer, os dirigentes pedem serenidade. Quando aparecem buracos, pedem confiança. E quando o caminho está cheio de minas, pedem que todos cerrem fileiras. Presumivelmente, para que ninguém tenha de rebentar sozinho.
José Luís Carneiro avisou os socialistas de que virão tempos difíceis. Falou de montanhas, vales, subidas e descidas. Uma verdadeira excursão pela geografia política. O problema é que o Partido Socialista não está propriamente a atravessar a serra da Estrela. Está a caminhar sobre um terreno minado, onde cada passo pode ter consequências e onde não basta dizer aos caminhantes que tenham coragem.
O PS não está perante uma simples dificuldade de percurso. Está perante uma crise de posicionamento político.
De um lado, um Governo que precisa dos socialistas para viabilizar o Orçamento. Do outro, uma direita radical que disputa o eleitorado descontente e aproveita cada hesitação. Pelo meio, um PS que procura ser simultaneamente oposição, garante de estabilidade e alternativa ao poder.
É uma espécie de exercício de equilibrismo político em que se pretende atravessar uma corda bamba, sem cair, sem incomodar ninguém e, se possível, ainda receber aplausos no final.
O secretário-geral considera que o Orçamento é mau, admite que as convicções socialistas justificariam o voto contra, mas propõe a abstenção em nome da estabilidade.
A estabilidade é importante. Evidentemente. Mas há uma pergunta que não pode ficar por responder: estabilidade para quê, em benefício de quem e a troco de quê?
Porque os portugueses não pagam a renda com estabilidade política. Não enchem o frigorífico com responsabilidade institucional. Nem conseguem marcar uma consulta no Serviço Nacional de Saúde apresentando uma declaração de boas intenções.
É preciso reconhecer que viabilizar um Orçamento pode ser um ato de responsabilidade. Mas também pode transformar-se numa armadilha política quando os eleitores deixam de perceber onde termina a responsabilidade do Governo e começa a responsabilidade de quem permite que governe.
E é precisamente aqui que o campo fica minado.
O maior perigo para o PS não é perder uma votação. É perder a capacidade de se distinguir.
Quando um partido procura não desagradar a ninguém, arrisca-se a deixar de entusiasmar alguém. Quando transforma a prudência numa estratégia permanente, pode acabar por descobrir que a prudência não é propriamente um projeto político.
Depois surge o apelo a cerrar fileiras.
Faz sentido pedir unidade. Nenhum partido atravessa uma fase difícil se estiver permanentemente dividido. Mas há uma diferença considerável entre unir pessoas em torno de um projeto e pedir-lhes que caminhem todas na mesma direção sem explicar suficientemente qual é o destino.
A unidade não pode ser um substituto da estratégia. E a disciplina partidária não pode ser confundida com confiança política.
O PS tem história, implantação territorial, quadros e capacidade de governação. Tem também uma responsabilidade que ultrapassa largamente os seus equilíbrios internos: apresentar uma alternativa credível para quem trabalha, para quem depende dos serviços públicos, para os jovens que não conseguem comprar casa e para os reformados que veem o custo de vida aumentar.
Essa alternativa não se constrói apenas com discursos de resistência, metáforas geográficas ou apelos à coragem.
Constrói-se com escolhas. Algumas difíceis. Outras impopulares. E muitas que obrigam a explicar claramente de que lado se está.
As sondagens podem subir ou descer. Isso faz parte da democracia. O verdadeiro problema começa quando os cidadãos deixam de saber exatamente o que estão a escolher.
Talvez José Luís Carneiro tenha razão quando diz que não há montanhas sem vales. Mas convém acrescentar uma evidência: também não há recuperação política sem rumo.
E, neste momento, o PS precisa de mais do que um discurso motivacional. Precisa de uma bússola política, de coragem para assumir diferenças e da capacidade de voltar a falar para o país com uma voz própria.
Porque, num campo minado, cerrar fileiras pode parecer uma demonstração de força.
Mas a verdadeira liderança não consiste em convencer todos a avançar juntos. Consiste em saber onde se pode pisar.
E, sobretudo, em saber para onde se quer ir.


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