Há uma coisa particularmente desagradável em ser Luís Montenegro: descobrir que a oposição mais incómoda pode não estar sentada à sua frente, na Assembleia da República, mas instalada na memória do seu próprio partido.
Pedro Passos Coelho voltou a falar. E, como tem acontecido ultimamente, cada vez que fala, Luís Montenegro fica com mais uma preocupação. A situação começa a justificar que o primeiro-ministro tenha dois gabinetes de comunicação: um para responder à oposição e outro para responder aos antigos líderes do PSD.
Desta vez, Passos foi particularmente interessante. Não excluiu regressar à política se o PSD não apresentar resultados satisfatórios. Traduzindo para português corrente: deseja muito sucesso a Montenegro, porque, se não tiver sucesso, está disponível para lhe ocupar o lugar.
É uma forma curiosa de manifestar solidariedade. Uma espécie de bombeiro que aparece junto de uma casa e informa o proprietário de que, se aquilo começar a arder, está disponível para ficar com o terreno.
Mas a entrevista à SIC Notícias trouxe uma novidade ainda mais interessante. Passos Coelho elogiou André Ventura, reconhecendo-lhe bastante mérito e uma capacidade de iniciativa notável.
Convém perceber a delicadeza da situação. Montenegro passou anos a explicar que com o Chega era não. Passos aparece e explica que talvez fosse importante conversar com o Chega. Ventura agradece, naturalmente. Afinal, quando um antigo primeiro-ministro do PSD reconhece publicamente o seu mérito, o líder do Chega recebe uma espécie de certificado de qualidade emitido pela concorrência.
E Montenegro? Montenegro fica numa posição extraordinária. Tem um adversário político chamado Ventura e um antigo líder do seu partido que elogia esse adversário. É um bocadinho como estar num jogo de futebol e descobrir que o antigo capitão da nossa equipa está na bancada a elogiar o ponta de lança adversário.
O problema, contudo, não começou ontem.
Em março, Passos já criticava a ausência de reformas profundas. Em maio, voltou a insistir na impaciência dos portugueses e falou de políticos postiços, sem esclarecer exatamente a quem se referia. Em setembro, exigia que Montenegro estivesse à altura da tradição reformista do PSD.
Agora, em outubro, admite regressar caso as coisas não corram bem.
Há aqui uma evolução interessante. Primeiro, Passos explica o que deve ser feito. Depois, explica que não está a ser feito. Finalmente, admite que talvez tenha de ser ele a fazê-lo.
É uma sequência perfeitamente legítima numa democracia. Mas também é a sequência que torna desconfortável a vida de qualquer líder partidário.
E é aqui que surge a questão do cerco a Montenegro.
Não é necessário imaginar reuniões clandestinas, conspirações em restaurantes ou militantes a afiar punhais numa sede distrital. Na política, um cerco pode fazer-se através de entrevistas, conferências e declarações cuidadosamente colocadas no espaço público. Pode nem sequer existir uma operação organizada. Basta haver uma alternativa permanentemente disponível e um líder permanentemente comparado com ela.
Montenegro foi reeleito líder do PSD em maio, sem adversários internos. Isto não é um pormenor. É o dado que impede confundir tensão política com uma revolta partidária já demonstrada.
Mas também é verdade que uma eleição interna não elimina o peso de quem, estando fora da liderança, continua a disputar a orientação política do partido.
Sobretudo quando a discussão deixa de ser apenas sobre a velocidade das reformas e passa a envolver uma questão fundamental: com quem deve o PSD governar?
É precisamente aí que as diferenças entre Passos e Montenegro se tornam mais visíveis. Um insiste que era necessário explorar um entendimento com o Chega e a Iniciativa Liberal. O outro tem defendido que não deve existir uma solução de governo com o Chega.
Não se trata apenas de duas maneiras de fazer a mesma política. São entendimentos distintos sobre as alianças e a identidade política do PSD.
E André Ventura observa esta divergência numa posição bastante confortável: não precisa de inventar uma divisão na direita quando os seus protagonistas se encarregam de a discutir publicamente.
Talvez Passos nunca regresse. Talvez Montenegro consiga afirmar a sua estratégia e superar estas divergências. Talvez tudo isto não passe de um debate político intenso entre duas figuras com conceções diferentes do país.
Mas uma coisa já se percebe: Montenegro governa Portugal e, ao mesmo tempo, tem de explicar continuamente por que razão não governa como Passos Coelho gostaria.
Não é uma situação impossível de gerir. É apenas particularmente ingrata.
Até porque, habitualmente, quando um político perde o apoio de um antigo líder, o problema é encontrar uma alternativa.
Neste caso, a alternativa não precisa de ser encontrada.
Está constantemente a dar entrevistas.
E Montenegro começa a perceber que, na política, há cerros difíceis de subir. Mas há Passos ainda mais difíceis de contornar.


Comentários
0Ainda não existem comentários. Pode ser o primeiro a participar.