Há guerras que se travam com mísseis, outras com dinheiro. Esta está a conseguir fazer as duas coisas. E a fatura começa a chegar aos bolsos de milhões de pessoas que nunca escolheram participar nela.
Há uma coisa extraordinária na economia mundial: basta um navio deixar de passar num estreito do Médio Oriente para um português pagar mais pelo gasóleo, um japonês ficar preocupado com a inflação e um agricultor brasileiro descobrir que a sua produção ficou mais cara. A globalização tem destas coisas. Aproximou o mundo, mas também conseguiu que problemas a milhares de quilómetros fossem entregues à nossa porta, sem sequer cobrar portes de envio.
A guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, iniciada no final de fevereiro, veio juntar-se a um mundo que ainda não tinha recuperado completamente das consequências económicas da invasão russa da Ucrânia. O resultado é uma nova crise energética, com o petróleo novamente acima dos 100 dólares por barril, o gasóleo sob uma pressão ainda maior e uma pergunta que começa a inquietar governos de vários continentes: quanto tempo aguentam as famílias e as empresas?
O problema começa num lugar que muita gente dificilmente saberia localizar num mapa: o estreito de Ormuz. É uma passagem marítima por onde, antes desta guerra, circulava aproximadamente um quinto do petróleo consumido no mundo. Quando essa passagem fica ameaçada, não é apenas o Irão que tem um problema. São as refinarias, os transportadores, as companhias aéreas, os supermercados e, inevitavelmente, os consumidores.
Mas existe um detalhe que torna esta crise especialmente perigosa. Não basta haver petróleo. É preciso conseguir transportá-lo e transformá-lo em gasolina, gasóleo ou combustível para aviões. E a guerra está a afetar precisamente essas três etapas. É por isso que o gasóleo está a encarecer mais do que seria de esperar olhando apenas para o preço do barril. Podemos ter petróleo disponível e, ainda assim, faltar o combustível de que precisamos.
Na Europa, o problema é particularmente delicado. A Alemanha, durante décadas uma potência industrial sustentada por energia relativamente acessível, continua muito dependente dos combustíveis fósseis. A sua indústria química, automóvel e metalúrgica não pode simplesmente desligar as máquinas quando a energia fica cara. Ou aceita margens de lucro menores, ou aumenta os preços, ou perde competitividade. Nenhuma destas opções é propriamente uma boa notícia para os trabalhadores.
França e Itália enfrentam dificuldades semelhantes, embora com características próprias. Os franceses contam com uma importante produção nuclear de eletricidade, mas isso não impede que paguem mais pelos combustíveis. Os italianos continuam muito expostos ao gás natural e ao peso da energia na indústria. E o Reino Unido, apesar de produzir petróleo e gás, também não escapa aos preços internacionais nem à pressão sobre o custo de vida.
Portugal e Espanha têm uma vantagem importante: a crescente produção de eletricidade através de fontes renováveis. Mas convém não confundir eletricidade com gasóleo. Um parque solar pode ajudar a baixar a dependência energética, mas ainda não abastece diretamente os milhares de camiões que transportam alimentos diariamente.
Em Portugal, a subida dos combustíveis tem um efeito silencioso. Primeiro, aumenta a despesa de quem precisa do automóvel para trabalhar. Depois, encarece os transportes, a agricultura, a pesca e a distribuição. Finalmente, aparece nas prateleiras dos supermercados. E quando aparece, já ninguém pergunta de onde veio o petróleo. Pergunta apenas porque é que o dinheiro acaba cada vez mais cedo.
O Banco Central Europeu enfrenta, entretanto, um dilema complicado: combater a inflação sem sufocar a economia. Philip Lane, economista-chefe do BCE, tem alertado para o efeito que os preços elevados da energia podem ter na redução do consumo. Traduzindo: as famílias compram menos porque têm menos dinheiro disponível. Os preços podem acabar por abrandar, mas isso não significa necessariamente que as pessoas estejam melhor. Significa, muitas vezes, que deixaram de conseguir comprar.
Na Ásia, a situação consegue ser ainda mais preocupante.O Japão importa praticamente todo o petróleo que consome e depende fortemente do Médio Oriente. A subida dos custos energéticos chega às fábricas, aos transportes e às famílias, agravada quando o iene perde valor. O país que durante tantos anos lutou contra a falta de inflação vê-se agora obrigado a combater o problema inverso.
A Coreia do Sul também está exposta, sobretudo através da sua indústria e da dependência de importações energéticas. A Índia, por sua vez, tem um problema adicional: precisa de comprar petróleo em dólares. Quanto mais caro fica o petróleo e mais fraca estiver a rupia, maior é a pressão sobre as reservas e sobre os preços internos. O banco central indiano já teve de intervir para aliviar a procura de dólares pelas grandes empresas petrolíferas.
E depois há a China. Pequim dispõe de reservas, diversificou fornecedores e investiu fortemente em energias renováveis, carros elétricos e tecnologia. Está, por isso, mais preparada para enfrentar alguns choques do que muitos dos seus vizinhos. Mas continua a ser um gigante industrial que necessita de quantidades enormes de energia. Se produzir fica mais caro, exportar também pode ficar. E se a procura internacional enfraquece, a China acaba por sofrer dos dois lados: paga mais para produzir e encontra menos clientes para comprar.
No Sudeste Asiático, o problema é sobretudo social. Filipinas, Indonésia e outros países têm milhões de pessoas dependentes de transportes rodoviários, motorizadas e pequenas atividades comerciais. Quando o combustível sobe, não existe necessariamente margem para aumentar salários ou absorver os custos. Nas Filipinas, os transportadores já recorreram à greve. É aqui que uma crise energética começa a transformar-se numa crise de confiança.
Nos Estados Unidos, a ironia é evidente. Estamos a falar de um dos maiores produtores de petróleo do mundo, mas isso não impede os norte-americanos de pagarem mais na bomba. O preço dos combustíveis responde a um mercado global e à capacidade de refinação. Transportadores e agricultores estão entre os mais atingidos, precisamente numa altura em que Donald Trump enfrenta a pressão política das eleições intercalares.
A Casa Branca pode tentar aliviar impostos, libertar reservas ou negociar novas fontes de abastecimento. Mas há uma coisa que nenhum presidente consegue fazer por decreto: obrigar os mercados internacionais a esquecer que existe uma guerra.
No Brasil, a situação também revela as contradições da economia mundial. O país produz muito petróleo, mas continua a importar uma parte importante do gasóleo que consome. Isto significa que o aumento dos preços internacionais pode beneficiar determinados produtores e, ao mesmo tempo, prejudicar camionistas, agricultores, pequenas empresas e famílias. E numa economia tão dependente do transporte rodoviário, uma subida do gasóleo tem consequências que vão muito além das bombas de combustível.
A Austrália enfrenta dificuldades semelhantes. Apesar de ser uma potência exportadora de recursos naturais, depende de combustíveis refinados importados. O aumento dos preços está a pressionar os rendimentos das famílias e a política monetária. Mais uma vez, produzir recursos energéticos não significa estar protegido de uma crise internacional.
Mas é em partes de África e do Médio Oriente que as consequências podem tornar-se mais dramáticas. Países como o Quénia enfrentam uma combinação perigosa: combustível caro, rendimentos reduzidos, dívida pública e pouca capacidade financeira para apoiar a população. Os protestos contra os preços dos combustíveis já provocaram vítimas mortais. A Nigéria, apesar de ser produtora de petróleo, enfrenta igualmente um enorme problema com os preços internos e o poder de compra.
No Médio Oriente, até os grandes produtores estão a descobrir que possuir petróleo não é suficiente quando as infraestruturas são atacadas ou as rotas de exportação ficam bloqueadas. O petróleo que não consegue sair de um porto não paga salários, não financia serviços públicos e não chega às refinarias dos clientes.
Ajay Banga, presidente do Banco Mundial, tem chamado a atenção para a pressão simultânea da energia, dos fertilizantes e do endividamento sobre os países mais vulneráveis. Porque a crise não termina no depósito de combustível. O gasóleo mais caro aumenta o custo das colheitas e do transporte dos alimentos. Os fertilizantes mais caros encarecem a agricultura. E os juros mais elevados tornam as dívidas mais difíceis de pagar.
É aqui que surge a palavra que nenhum governante gosta de ouvir: estagflação. Uma situação em que os preços continuam a subir enquanto o crescimento económico enfraquece. Ou seja, a vida fica mais cara, as empresas investem menos e os empregos tornam-se mais inseguros. É uma combinação difícil de resolver porque as medidas que ajudam a travar a inflação podem agravar a falta de crescimento.
E depois existe a política.
As pessoas podem compreender que uma guerra provoca problemas económicos. O que dificilmente aceitam é que esses problemas se prolonguem indefinidamente enquanto os salários não acompanham os preços. Já se viram protestos ligados aos combustíveis em países africanos e asiáticos. Na Europa, a insatisfação social resulta de vários fatores, incluindo o custo de vida, a dívida pública e a dificuldade dos governos em responder às expectativas. Nos Estados Unidos, a energia tornou-se uma questão eleitoral.
Seria errado anunciar que estamos perante uma vaga inevitável de revoltas. Mas também seria ingénuo imaginar que sucessivas perdas de poder de compra não têm consequências políticas. Quando as famílias sentem que trabalham cada vez mais para comprar cada vez menos, a confiança nas instituições começa a ser posta à prova.
Os governos têm agora três desafios: proteger quem mais precisa, impedir que empresas economicamente viáveis desapareçam por causa dos custos e acelerar a redução da dependência dos combustíveis importados. Tudo isto sem transformar os apoios temporários numa despesa permanente impossível de financiar.
A resposta não pode ser apenas baixar impostos sempre que o barril sobe, nem pedir às famílias que esperem pacientemente pelo fim da guerra. É preciso reforçar alternativas energéticas, transportes públicos, eficiência das empresas e mecanismos de proteção social que cheguem a quem realmente necessita.
Porque a maior ameaça desta crise talvez não esteja apenas no preço do petróleo. Está na sensação crescente de que os cidadãos perderam o controlo sobre as suas próprias vidas e de que decisões tomadas muito longe são suficientes para destruir o equilíbrio de um orçamento familiar.
As guerras começam frequentemente por decisões de poucos. As suas consequências acabam quase sempre por ser pagas por muitos.
E, desta vez, a conta chega todos os dias. Na bomba de combustível, na prestação da casa, na conta da luz e no supermercado.
O maior perigo não é apenas o petróleo ficar mais caro. É a vida tornar-se demasiado cara para demasiadas pessoas.
Quem sente mais a pressão da crise energética?
Explore o mapa: vermelho-escuro indica pressão extrema; verde indica pressão relativamente baixa. Clique num país para consultar a análise.
Sem classificação
Pressão elevada
Clique noutro país para consultar a respetiva análise.
Escala editorial indicativa de vulnerabilidade energética e económica, não uma previsão de conflitos sociais. Outubro de 2026. Países não analisados surgem a cinzento.


Comentários
0Ainda não existem comentários. Pode ser o primeiro a participar.